As artes pontilharam em minha trajetória

(CARLOS CASAES E CARLA MARIA)

Uma iniciativa que pontificou em minha vida na noite de ontem – 25/07/2026 proporcionou a que eu relembrasse de uma faceta de minha vida que não está contada no meu quarto livro – “Patranhas de um Viajor”. Sem dúvidas de que ocorreu um lapso durante o período em que o escrevi, revisei e publiquei. Mas que constitui, sem a menor dúvida, um momento muito importante, até porque muito curioso ao ser analisada toda a minha vocação, durante todos estes bem vividos 92 anos.



O fato que me levou a esta reflexão foi que na noite de ontem, inversamente ao que vem ocorrendo durante todos estes cerca de 12 anos (desde que minha nunca esquecida TEREZA se foi). Reunida a família (com CARLA, HELGA, LORENZINHA e BETO), fui ao cinema. Coisa que foi hábito quase diário durante a minha adolescência.

E buscamos permanecer numa das mais elegantes salas de um shopping center em Lauro de Freitas, aqui bem próximo onde desfrutamos de uma razoável tranquilidade e conforto. Assistimos, por sinal, e durante nada menos do que 3 horas, um clássico que está sendo uma das grandes atrações do setor, no momento: a “ODISSEIA”. Fomos nos deslumbrar com o extraordinário espetáculo de técnica aplicada em todo o desenrolar do argumento. Até a reconstrução do tão historicamente badalado Cavalo de Troia”.

A “Ilíada” narrada de forma espetacular


O importante no fato da noite de ontem, é que reanima a grande preocupação que ocupou uma excepcional parcela da minha mocidade, pois esteve configurada no telão com os argumentos materializados por criadores e técnicos de grande potência, para proporcionar vida à famosa e badalada obra do poeta épico HOMERO, que teria se inspirado com muita vibração para materializar a guerra antiga, com a “ODISSÉIA”.

Fato curiosamente instalado na discussão levanta questionamento quanto à existência daquele poeta tão festejado hoje na criatividade dos que materializaram a “fita” explicitando os contrapontos da famosíssima” Guerra de Tróia”. O argumento da obra dispõe sobre origem do retorno do herói ULISSES para casa. Conquanto os historiadores questionem que, em verdade, os livros o que fazem é reunir mitos emersos por muitas individualidades, durante um tempo inesgotável.

Portanto, Ilíada e Odisseia são, na realidade, dois poemas épicos, uma obra que manifesta o caráter antropológico e mitológico da agitada ideia. Pois HOMERO, o poeta grego ao qual é atribuída a compilação da Ilíada e da Odisseia, gerou dois dos maiores poemas épicos da Grécia antiga.

 O que aquela noite me sugeriu

Ao retorno à casa acolhedora, e mesmo antes de que o sono passasse a comandar as minhas aventuras noturnas, cheguei a tergiversar sobre um certo momento do meu passado. Eis que, de forma absolutamente surpreendente, vi-me conduzido a momentos muito curiosos da minha biografia. E a motivação teria sido o “papo” constituído sobre a noitada que me lembrara o tanto tempo de que me encontrava distanciado de vivenciar cinema.

Fui um frequentador habitual dos shows

O que me ocorreu foi um transporte de memória a décadas como as de 60 a 80, quando, anualmente, visitei com TEREZA o Rio de Janeiro nas férias. Em todas aquelas oportunidades, foi um hábito meu assistir a todos os principais espetáculos artísticos, musicais ou teatrais. A memória me conduziu a recordar de que, em determinado momento, cheguei a me propor praticar um pormenor que conduzia às atividades dos empresários de espetáculos.


Porque, supreendentemente e sem qualquer sentido de vocação natural, cheguei a investir na captação de alguns especiais espetáculos para apresentações em Salvador. Assim ocorreu com um show que constituiu muito especial sucesso à época, no Rio: o “Rio, Bossa e Balanço”. Porquanto, em virtude de ser um notívago contumaz quando em visita àquela cidade, numa das oportunidades fui assistir àquele espetáculo que se constituía numa das apresentações mais bem sucedidas na “Cidade Maravilhosa”, no Teatro de Arena que ficava no Largo da Carioca. Isto era o ano de 1965, então.

 Na realidade, um lindo show

Era, por sinal, um das mais badaladas apresentações em cartaz na Cidade Maravilhosa “Rio, Bossa e Balanço”, um muito bem elaborado musical que tinha como figura central na manifestação de muitos dos mais expressivos sucessos da “bossa nova” da época, a festejadíssima intérprete Leni Andrade. Transcorriam, então, os anos 60. Numa das festejadas salas de apresentações cariocas, o musical sobretudo, na complementação artística que tinha a Leni como “carro chefe”, percorria por quase duas horas, os caminhos do bailado bem criativo.

E era uma produção que se dizia da responsabilidade de criação do bailarino JOAZ LOPES, que conduzia toda a movimentação com as, igualmente, bailarinas, YOKO OKADA e ZUZIMA TUNINO. Eu fiquei tão encantado que extrapolei do meu entusiasmo e, após o encerramento da apresentação, fui até o camarim e, no encontro com aqueles competentes intérpretes, consultei-os sobre a possibilidade de virem proporcionar apresentações aqui em Salvador.

E não é que eles se entusiasmaram com a ideia? A consequência foi que, dias depois, eles se encontraram “baixando” nesta encantadora Cidade do Salvador. Então, consegui com o Diretor da Escola de Teatro da Universidade Federal – que havia sido meu ex-professor -  ANTONIO BARROS, que me fosse cedido o palco do teatro daquela unidade universitária. Que ficava ali no bairro do Canela.

Sucesso inquestionável

Conquanto eu, sem experiência na iniciativa, não proporcionasse a devida divulgação da apresentação do belíssimo espetáculo, o sucesso foi magnífico, com casa cheia pouco depois da estreia. Inclusive, lembro de que, numa daquelas noites, quem foi assistir ao show foi o Presidente do Tribunal Regional do Trabalho, CARLOS COQUEIJO COSTA, que mantinha uma prestigiada “coluna” no vespertino A Tarde. “Encantado” com o que assistiu, passou a divulgar com destaque a partir de então.

No entanto, um episódio absolutamente lamentável encarregou-se de interromper aquela trajetória exitosa do “Rio, Bossa e Balanço”, em Salvador. Seguinte: um carioca que se dizia produtor do espetáculo, e que mantinha um relacionamento com uma das bailarinas, encontrando-se em Salvador para acompanhar o show, desentendeu-se com ela e proporcionou cenas lamentáveis no próprio teatro.


A consequência foi que, o Diretor da “casa”, em virtude daquele entrevero, suspendeu a sua apresentação, o que me deixou numa situação difícil. Mas, logo a seguir, eu consegui que o show fosse para o teatro do Instituto Normal Isaías Alves, no bairro do Barbalho. No entanto, além de um tanto distante do centro da cidade e por ser um teatro com dimensões bem maiores, não logrou continuar atraindo um público compensador. O que me fez encerrar as apresentações e fazer, também, retornar ao Rio todo o elenco. Mas eu, encantado com o certo sucesso da iniciativa, tive uma outra intenção.


Simonal despontava como um dos maiores sucessos

Mais ou menos naquela mesma época, quem se apresentava como um dos mais expressivos sucessos musicais era WILSON SIMONAL. Aliás, sobre ele, indispensável que relembre como foi que aconteceu como inquestionável sucesso de público. Ocorreu inteiramente por acaso. Seguinte:

Precisamente no dia 4 de outubro do ano de 1969, o Maracanãzinho encontrava-se superlotado, com cerca de 30.000 espectadores, para a apresentação do show com um dos maiores cartazes musicais de então, sucesso absoluto nos Estados Unidos, SÉRGIO MENDES: famosíssimo pianista, arranjador e compositor brasileiro, que nasceu em Niterói e se constituiu, à época, num dos mais expressivos divulgadores, no exterior, da “bossa nova”, do samba e da própria MPB.



Ocorre que o espetáculo estava demorando de ter início e o público já se impacientava com manifestação ruidosa. Foi quando o produtor daquela noitada, encontrando SIMONAL ali, teve a iniciativa de convidá-lo para uma “palhinha”, enquanto o titular da noite se preparava. “SIMONA”, à época, começava a aparecer na noite carioca, mas ainda não tinha, no entanto, grande expressão.

Surpreendentemente, ele aproveitou a oportunidade para mostrar o seu talento e a sua “bossa” que, diante do impressionante sucesso que alcançou, fazendo sacudir o Maracanãzinho, teve ali configurado o início da sua indiscutível fama.

Assistimos sua apresentação em Ipanema


Algum tempo depois, quando eu e TEREZA nos encontrávamos, mais uma vez, visitando o Rio de Janeiro, tivemos o ensejo de assistir a uma especial apresentação do SIMONA, que ocorria, então, no Teatro Santa Izabel, em Ipanema. O excepcional intérprete já se encontrava com o seu prestígio consolidado, quando daquela apresentação que se intitulava “MAGNÍFICO SIMONAL”, produzido, então, por dois dos maiores responsáveis pelos mais destacados sucessos noturnos de então: MIÉLE E BOSCOLI. Manifestação que, por sinal, tinha o acompanhamento do conjunto “SOM TRÊS”.                    

Encantado com a beleza do show, ao seu final, eu fui aos bastidores e, no camarim, contatei com o já famoso cantor e o consultei – como fizera com o “Rio Bossa e Balanço” - se ele não gostaria de vir se apresentar em Salvador. Por sinal, um pormenor que me deixou impressionado, num dos cantos do seu camarim, encontravam-se inúmeras garrafas vazias de rum. Foi quando ele me esclareceu de que se ele não tomasse um pouco daquela bebida, antes de se apresentar, teria dificuldade de que sua voz manifestasse a firmeza de sempre.

Contudo, em virtude dos seus já inúmeros compromissos contratados, a vinda de SIMONAL a Salvador não prosperou.

O surgimento de Betânia

Um outro momento histórico, envolvendo episódios artísticos, ocorreu em uma nova ocasião em que eu também me encontrava com TEREZA no Rio de Janeiro. Então, estava sendo apresentado o espetáculo “OPINIÃO”, que ocorria no Teatro de Arena, no Shopping Center Copacabana à rua Siqueira Campos. Estava sendo lançada, à época a música CARCARÁ. E a interprete era ninguém menos do que NARA LEÃO, que já despontava como um sucesso muito especial.

Ocorre que NARA, por questões de saúde – havia perdido a voz, em certo momento – ficou impossibilitada de continuar o show. Foi quando, então, ZÉ KETI e JOÃO DO VALE tiveram a ideia de convidar MARIA BETÂNIA – que, naquele momento, estava sendo lançada pelo irmão CAETANO VELOSO – para substituir eventualmente NARA. O maior sucesso daquele espetáculo era mesmo a canção CARCARÁ, da autoria de JOAO DO VALE e JOÃO CÂNDIDO.



Por absoluto acaso, eu havia ido assistir àquele espetáculo com TEREZA, exatamente na noite em que BETÂNIA substituiu NARA. Ocorreu que, na sua interpretação, a maravilhosa cantora de Santo Amaro assumiu o papel de uma retirante nordestina, com uma força dramática tal que o sucesso foi simplesmente “estrondoso”. Foi exatamente ali que ocorreu o seu lançamento em projeção nacional. 

Sem a menor dúvida, três momentos muito especiais na arte musical brasileira!

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