O Cassino do Estoril e Nuno Lima de Caralho

(Carlos Casaes e Carla Maria)

Com a consolidação do lançamento da GAZETA DA BAHIA – Turismo, cujo primeiro número foi apresentado no Congresso da ABAV que se realizou em Fortaleza-Ceará, em 1976, eu passei a viajar com muita frequência. E um dos meus destinos, logo, logo, foi a Europa, a partir do convite que me foi proporcionado pelo saudoso amigo Renê Canavarro que, então, era o Diretor na Bahia da KLM, companhia de transporte aéreo da Holanda. Onde eu já estivera, por sinal, em três oportunidades anteriores. E não parei mais de viajar para aquele continente.


A minha atração preferida era Portugal, pelo fato de que passei a frequentar a realização da BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa, que ocorria em todos os últimos fins-de-semana de janeiro. Até porque, nunca raro, era convidado, também, pelo Departamento de Turismo lusitano, com sede em São Paulo, cujo Diretor era o meu estimado amigo PAULO MACHADO. Quando não ia mesmo por “conta própria”. Além do que era convidado pelo próprio Governo português para algum outro tipo de evento que lá ocorria (como aconteceu, especialmente, com o convite para visitar o espaço em que – ao leste da cidade de Lisboa e à margem do Tejo – estava sendo construída a sede onde seria realizada, naquele ano, a Expo-Lisboa). Da mesma sorte como era levado todos os anos a participar do Congresso da APAVT – Associação Portuguesa dos Agentes de Viagem e Turismo, cujo Presidente era o meu, também, querido e saudoso amigo Joaquim Pinto da Silva. Em duas oportunidades das quais o evento ocorreu em Évora e no Algarve. Por sinal, em ambos eu estive também.

Naquelas andanças lusitanas, tive o grande prazer de conhecer e me aproximar de uma das mais importantes personalidades daquele país: NUNO LIMA DE CARVALHO. Nuno foi uma figura da maior significação para o turismo português, porquanto ele era vinculado ao Cassino do Estoril, na condição de seu Diretor de Relações Exteriores, por 40 anos, pelo que exercia, também, intervenções nos setores da gastronomia. Ao lado do que ele manteve por muitos anos e foi seu Diretor na Galeria de Arte do Cassino, desde 1975. Foi, ainda, membro do júri do “Prêmio Vasco da Graça Moura – Cidadania Cultural”, bem assim dos prêmios literários Fernando Namora e ao lado do “Agustina Bessa Lins – Revelação”, instituído pelo Estoril Sol, como ainda foi responsável pelos Salões de Outono e dos Salões Internacionais da Pintura Naïf de Jaen, na Espanha. Da mesma sorte que desempenhou as funções na Direção da União de Grêmios dos Espetáculos no Estoril-Sol.

Nuno

nasceu em 15 de junho de 1932, em Vila Franca do Lima, em Viana do Castelo, e foi um dos promotores do Museu de Arte Primitiva Moderna, de Guimarães, como, ainda, dinamizador da representação portuguesa no Museu Internacional de Pintura Naïf de Jaen, na Espanha. Ele faleceu em 16 de maio de 2019, aos 86 anos. Sua qualificação informa de que ele era Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, bem assim em Filosofia e Letras pela Universidade de Salamanca, na Espanha.

Amigo por muitos anos

Na realidade, eu conheci NUNO quando da realização em Salvador da Primeira Semana do Turismo da Bahia-Estoril-Portugal, que aconteceu na Capital baiana. Ele foi o grande articulador daquele evento (junto a LICINIO COELHO e ao Dr. MANUEL TELLES) que, além de contar com o apoio incondicional do Governador de então, ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES, trouxe para Salvador um avião da TAP cheio das principais lideranças do turismo português, inclusive 15 jornalistas lusitanos especializados em turismo.

(A vinda dos jornalistas me inspirou a promover um encontro dos profissionais baianos com eles. Encontro que foi tão bem sucedido a ponto de fundarmos, então, a Associação Luso-Brasileira de Jornalistas de Turismo. A nova entidade realizou, durante vários anos, um encontro anual aqui na Bahia e outro em Portugal.)


E, para ainda mais elevar o prestígio daquele evento, trouxe, também, um grupo das principais lideranças culturais portuguesas, por sinal, encabeçado por nada mais nada menos do que a maior intérprete do fado, AMÁLIA RODRIGUES. Que, por oportuno, foi a responsável pela festa do encerramento do evento, que ocorreu no domingo e no Teatro Castro Alves. Quando ela foi homenageada pelo Governador ANTÔNIO CARLOS com um ramalhete de flores, fato que emocionou à mesma e a todo o público que lotou o teatro.

A instalação do evento ocorreu no Palácio da Aclamação, com a presença de todas as autoridades baianas, bem assim das lideranças, também, do turismo no Estado. Durante a semana ocorreram exposições, palestras, uma feira de artesanato, outra de culinária, ao lado, evidente, das apresentações culturais.

Cidadão soteropolitano

A partir de então, desenvolveu-se entre nós – eu e Nuno - uma bela e forte amizade, que cultivamos até a sua morte. De tal sorte que, em certo momento, eu consegui que a Câmara Municipal de Salvador (Vereadores), através do meu também muito querido e saudoso amigo Vereador Maltez Leone, lhe concedesse o titulo de Cidadão Soteropolitano (de Salvador). Por sinal, a solenidade de entrega ocorreu na semana entre 24 de março e 5 de abril de 1987 quando, coincidentemente visitou a capital baiana o Presidente de então de Portugal, MÁRIO SARES. O qual, inclusive, participou e presidiu a solenidade de entrega daquele título.

Mas o querido e saudoso amigo NUNO LIMA DE CARVALHO, durante muitos anos teve uma atuação ainda bem mais forte na cultura em Portugal. Tanto assim que ele promoveu a criação do Prêmio Literário Fernando Namora, da mesma sorte como foi o editorialista do jornal “A VOZ”, também colaborador da imprensa regional, situação que lhe fez aproximar-se e cultivar grande amizade com algumas das principais figuras da literatura baiana e brasileira, a exemplo de João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado, Zélia Gattai, dentre outros. Entre várias outras distinções, consta em seu currículo o fato de ter recebido o prêmio “Grau de Oficial da Ordem Infante Don Henrique”, bem assim a “Comenda da Ordem do Mérito Civil da Espanha”, como também a “Ordem do Mérito Pero Vaz de Caminha”.

Em outras participações

Nuno também teve a oportunidade de participar de outras atividades culturais, como quando lançou o livro “Duas Vidas, Muitas Vidas”, o que ocorreu no dia 26 de novembro de 2016, na própria galeria de arte do Cassino. O livro, inclusive, foi uma homenagem à sua esposa, Maria Clarinda, que, por sinal, havia falecido em 2015. Ela teve sempre a participação com o esposo na direção da galeria do Cassino.

Nuno também esteve muito ativo na área de gastronomia, pois foi um dos fundadores da Confraria dos Gastrônomos do Minho, bem assim tendo sido o seu Mordomo-Mor por 22 anos. Da mesma sorte como promoveu grandes eventos gastronômicos das diversas regiões do país, no próprio Cassino. Mas, foi além, ao promover, também, semanas culturais e gastronômicas da Espanha, Suécia, Áustria, Itália, China, Macau, acrescente-se ainda o Brasil, muito especialmente a Bahia. Neste último caso, contou com o apoio de JORGE AMADO que, na ocasião, expôs todos os seus livros, como também as pinturas dos seus ilustradores.

Eu vivenciei muito o Cassino

Durante todos aqueles anos em que eu estive visitando Portugal, foram inúmeras as oportunidades em que fui convidado por ele para uma noitada no Cassino, com jantar e espetáculos artísticos. Sempre ao lado da minha inesquecível e amada TEREZA, como também que, em todas as oportunidades, o local foi o belíssimo salão “preto e prata”. Em algumas daquelas vezes, inclusive, tivemos o privilégio de assistir vários dos mais destacados espetáculos que foram apresentados no belo palco daquele espaço. Sobretudo entre os anos de 1970 e 2006.

Assim, vale lembrar de que lá estivemos quando da fantástica encenação musical de “Viva Mozart”. Da mesma sorte como, ali, tivemos o ensejo de lá nos encontrar quando da apresentação do espetáculo sobre a dança “O Circo do Sonho”, bem assim, por exemplo, dos shows de Jair Rodrigues, Elis Regina, Zimbo Trio, correndo por fora o maravilhoso fado de Amália Rodrigues.

Numa daquelas oportunidades, inclusive – que ocorreu durante uma das realizações da BTL- Bolsa de Turismo de Lisboa, encontravam-se comigo e Tereza naquela bela cidade, também, o saudoso e grande amigo Paulo Gaudenzi e sua esposa. Foi mais uma oportunidade em que o, igualmente, saudoso e querido amigo NUNO nos convidou, bem assim ao próprio Paulo com Eliana para jantar no belo “salão Preto e Prata”. O Nuno havia, coincidentemente, convidado um outro amigo que, por sinal, era proprietário do principal restaurante de Évora, no Alentejo português.

Um episódio hilário

Aproveitando a nossa presença naquele jantar, o “restauranteur” de Évora convidou-nos para visitar aquela cidade que, por sinal, Paulo não conhecia, e almoçar no seu restaurante. No outro dia, aproveitei a oportunidade para levar o Paulo a conhecer os principais atrativos de Évora. Sobretudo, e principalmente, a mais curiosa de todas as atrações locais que era, e continua sendo, a Capela dos Ossos.


Bom explicar de que a Capela dos Ossos integra o Convento e a Igreja de São Francisco, em Évora, e é um monumento nacional desde 1910. Todas as paredes interiores da pequena capela do século XVI são cobertas de ossos e caveiras de monges que ali pereceram. É um monumento da arquitetura penitencial e é dedicada ao Senhor dos Passos, mais conhecido como Senhor Jesus da Casa dos Ossos.

A Capela está situada na Praça 1º de Maio e foi construída no século XVII por iniciativa dos frades franciscanos, cujo objetivo foi de transmitir a mensagem da transitoriedade e fragilidade da vida humana. Bastante curioso e, às vezes, aterrador, é que no limiar da porta de entrada encontra-se a inscrição: “Nós, ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”.

O espaço é todo repleto de caveiras e vários outros ossos. Curioso é de que aquele local, antes, constituía o dormitório e a sala de reflexão dos frades. E é integrado por três naves de cerca de 18,70m de comprimento e 11m de largura. Ocorre que a iluminação natural procede de três pequenas frestas por onde passa a luz. Tanto as paredes quanto os 8 pilares são todos revestidos pelos ossos e crânios humanos.

Também, a capela está decorada com estátuas de cariz religioso, como ainda por uma pintura no estilo renascentista barroco. Tanto quanto as arcarias, ou arcadas, encontram-se todas ornamentadas com filas de caveiras, e cornijas brancas. Ao todo da esquisita decoração, são cerca de 5.000 caveiras humanas provindas das sepulturas da igreja e do convento, bem assim de outras igrejas e cemitérios da cidade.

O mais impressionante foi que, quando eu e Tereza chegamos junto com Paulo e a esposa, ele deu um treco ao ver no limiar da porta de entrada aquela inscrição “Nós, ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”, deu para trás e não queria entrar, bastante impressionado. Então, muito convencido por Eliana e por nós, decidiu, por sinal, visitar o espaço. Foi um episódio, sem dúvidas, muito hilário.

A bela estrutura do cassino

O Cassino do Estoril possui uma bela e complexa estrutura, a partir do seu salão de jogos tradicionais, da mesma sorte integrado por salas mistas com as modernas “slot machines”, que são aquelas máquinas automáticas. A seguir, encontra-se o espaço do “poker”, depois a badalada “roleta”, e logo o “black jack”, da mesma sorte que o “Ponto e Banca”, bem assim a “Banca Francesa”.



Na realidade, o Cassino constitui um complexo de jogos, restaurante, espaços para espetáculos e cultura. Porque são, em verdade, e como se vê, sete tipos de jogos, duas salas de espetáculos, dois restaurantes e 3 bares. Além da muito especial galeria de arte e dos seus famosos jardins.

Por consequência, as suas principais instalações, portanto, são os salões de jogos, as salas de espetáculos, a gastronomia, os bares, a cultura e os eventos (Reveillons e festas temáticas). É, portanto, um complexo de entretenimento que ultrapassa muito além dos meros jogos. Por consequência, vem a ser um importantíssimo ponto turístico de Lisboa e do país. O local onde se encontra, o Estoril, está a 18 km de Lisboa e a 20 km do aeroporto internacional.

É bom que se observe, ainda, de que se trata do maior cassino da Europa.

Vale lembrar de que o Estoril é uma charmosa e sofisticada freguesia de Cascais, nos arredores de Lisboa, – e no sentido do Oceano Atlântico – que, por sinal, é conhecida como a “Riviera Portuguesa”, por suas praias, seu clima ameno, luxuosos hotéis, bem assim o famoso cassino. Com fácil acesso à Capital. A freguesia é uma espécie de bairro, ou sub-prefeitura, que compõe um concelho (município).

Quando homenageamos Nuno

 E, para complementar todas estas informações, oportuno lembrar de que – como conseguimos realizar em Lisboa idêntica festa que ocorreu em Salvador por cerca de 30 anos, e que a de lá denominou-se de “Noite de gala do turismo Luso-Brasileiro”, aproveitamos logo na primeira das três noites que conseguimos levar a cabo na capital lusitana e prestamos uma expressiva homenagem ao Nuno, precisamente pelo fato de ele ter sido um personagem da maior importância para o turismo e para a economia de Portugal, como também pelos seus estreitos vínculos com Salvador e a Bahia.

Vale, ainda, lembrar de que, em algumas oportunidades em que ele veio a Salvador, destinou-se, inclusive, a adquirir algumas especiais peças da arte “naïf”. Para o que eu lhe fiz companhia sempre, levando-o aos espaços específicos daquela arte.

Uma outra informação, com a qual encerramos esta matéria, é a de que, já há alguns anos que um jornalista baiano vem, muito bem e com especial destaque, divulgando, sistematicamente, as atividades do Cassino do Estoril, que é o nosso também querido amigo e parceiro Duda Tawil.

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